Região

O Onça que quer ‘beber água limpa’

Apesar de ser uma das principais fontes de poluição da bacia do São Francisco, ribeirão dá sinais de esperança com volta dos animais às margens. Comunidade cobra tratamento e coleta de 100% do esgoto até 2025

Na memória, as lembranças de um local em que era possível nadar, pescar e brincar. Morador do bairro Ribeiro de Abreu, na região Noroeste de Belo Horizonte, há mais de 40 anos, Itamar de Paula, 63, recorda dos tempos em que o ribeirão do Onça “bebia água limpa”. E mesmo em meio ao esgoto e o lixo que contaminam o leito, o sopro de esperança: animais voltaram a viver no manancial e mostram que a recuperação é um sonho cada vez mais possível. 

Em poucas décadas, a urbanização desenfreada e a poluição ambiental transformaram o leito em um esgoto a céu aberto, apesar da Copasa garantir que trata 87% dos dejetos ao longo da bacia entre Belo Horizonte e Contagem. “Em qual momento que a gente abriu mão disso? É muito irresponsável o que estamos fazendo e não conseguimos mensurar o tamanho do perigo que corremos. O Onça ainda é o maior poluidor do rio das Velhas, que consequentemente contamina o São Francisco. Não é possível mudar muita coisa para baixo da bacia se não houver uma transformação aqui”, enfatizou. 

Mas as belezas da região que abriga mais de um milhão de pessoas seguem resistindo. Ao longo das margens, pedras pontiagudas contrastam com o verde das matas ciliares e o  vermelho dos tijolos das casas. Pelo caminho, nove praias de areais marrons, três cachoeiras e pelo menos 21 corredeiras. “Imagina se uma dessas cachoeiras que está a 10 km do pirulito da Praça Sete, com 31 metros de altura, fosse limpa? BH teria mais um cartão-postal. Eu queria que colocassem o preço dela suja, quanto isso custa? E com ela limpa?”, questionou.

Membro do Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra), Itamar e toda a comunidade se mobiliza há anos para pressionar pela limpeza do ribeirão. E já colheram muitos frutos. Ao longo de 5,5 km do ribeirão, a prefeitura da capital deu o pontapé inicial para a implantação do Parque Ciliar do Onça, a partir de um projeto sugerido pela entidade, com investimento de R$ 49 milhões. “​​Este empreendimento aguarda a viabilização de captação de recursos para as obras”, informou o Executivo municipal em nota.

700 famílias foram removidas das áreas de risco

Para viabilizar o parque, desde 2015 já foram removidas 700 famílias que viviam nas margens do Onça e corriam o risco das inundações – a meta é chegar a 1.500. “Não há como melhorar nada em um rio se não melhorar a vida das pessoas que moram nas margens do leito. É uma questão social, com resultado ambiental. A partir do momento que você cuida da população, propõe uma mudança de atitude, essas coisas começam a acontecer. Hoje, essas pessoas já não correm mais risco”, comemorou. 

E a comunidade também não está de braços cruzados à espera do poder público atuar. Por isso, já implantou diversos equipamentos na área do parque: além de uma horta, há campo de futebol, brinquedos, mesas, bancos e muitas árvores plantadas. Junto com o retorno da várzea do ribeirão e uma melhoria da qualidade da água do Onça, que ainda recebe o esgoto irregular 30.505 imóveis que não estão conectados à rede, micos, capivaras, garças pretas e outras diversas aves retornaram para a bacia. “Conseguimos mostrar que há um caminho. Um lugar que não tinha barulho de sapo, agora tem, não tinha pássaros, agora tem. É muito legal, dá esperança”, frisou.

Para Itamar, ainda é possível avançar muito mais e o Comupra busca diálogo com o poder público para que até 2025 o ribeirão Onça esteja totalmente limpo. “Para fazer isso, precisamos de cinco ações: retirar as famílias em risco nas margens, que já está acontecendo, implantação do parque ciliar, em andamento, interceptação e tratamento de 100% do esgoto, que estamos pressionando, além da municipalização da MG-20 (rodovia que fica nas margens do ribeirão) e construção do novo acesso no Ribeiro de Abreu”.

Horta comunitária produz alimentos orgânicos nas margens do Onça

A poucos metros da água escura e poluída, uma horta comunitária que produz alimentos frescos e orgânicos. Localizada nas margens do ribeirão, o espaço ajuda a preservar o parque ciliar e tem o cuidado diário do Roberto Blasig, 61, que também é membro do Comupra. “Não usamos produtos químicos, apenas naturais. Pode ser a borra do café com água para borrifar, o fumo para tirar as pragas. Estou aprendendo ainda, e é a horta quem ensina a cada dia”, disse.

Segundo Blasig, a horta ajuda a população a resgatar o contato com o ribeirão. “Esse é o objetivo, criar um espaço para a população poder participar e entender que a nossa Belo Horizonte não produz mais água potável. É necessário um trabalho para mostrar que sem o rio poderemos viver cada vez melhor. Antes, nas chuvas, a inundação chegava até aqui, mas como não existem mais casas nas margens, o Onça teve o seu espaço de volta”, finalizou.

Cobertura do sistema de esgoto na bacia é de 91%

Em nota, a Copasa informou que o índice de cobertura do sistema de esgotamento sanitário na bacia do ribeirão do Onça é de 91%. “Esse índice considera os imóveis factíveis de esgoto, ou seja, aqueles que possuem rede coletora disponível, mas que ainda não estão conectados ao sistema de coleta”, explicou. A companhia garantiu que realiza “ações de mobilização socioambientais visando a sensibilização da população para interligação às redes de esgoto”.

Já no ribeirão Arrudas, que é outra fonte de poluição do rio das Velhas, a coleta e tratamento do esgoto chega a 92% e a cobertura do sistema de esgotamento sanitário é de 94%. “A Copasa está elaborando diagnósticos e levantamentos para cada município objetivando identificar as necessidades de ampliação e melhorias e viabilizando recursos para implantação das obras”, finalizou.

Terceiro maior reservatório da Grande BH, Vargem das Flores pode secar em 23 anos

Retrato dos efeitos da degradação ambiental nos recursos hídricos do estado, a represa de Vargem das Flores, na Grande BH, pode secar em 23 anos. É o que apontou um estudo encomendado pela Copasa caso o ritmo atual de urbanização ao longo da bacia em Contagem continue. Terceiro maior reservatório da região, o espaço ganhou uma importância hídrica ainda maior após a contaminação do rio Paraopeba – segundo a companhia, o manancial abastece cerca de 500.000 pessoas.

Ativista do SOS Vargem das Flores, Adriana Souza disse que a ocupação da região com lotes e condomínios irregulares cresceu ainda mais neste ano, mesmo com o decreto da prefeitura que impede a continuidade das construções. “Em pouco tempo, não conseguiremos mais reverter os danos que estão sendo causados. A prefeitura precisa fazer um plano emergencial de fiscalização para coibir. É comum andar na área e escutar barulhos de máquinas, motoserras devastando os biomas do cerrado e mata atlântica, protegido inclusive por uma legislação federal”, declarou.

Em 2018, o plano diretor da cidade alterou o zoneamento da região, antes considerada rural em uma área que ocupa 25% do território de Contagem, para espaço de expansão urbana. Além disso, no ano passado foi permitida a venda de lotes menores que podem ter uma área com construções. “Quando você pensa que na bacia hoje tem 500 nascentes catalogadas, fora as outras ainda em processo. São pelo menos 2.000 nascentes na região. Com a mudança, as pessoas que compram acabam construindo casas, quadra, e isso tudo impermeabiliza o solo e reduz a recarga da represa. Quanto mais solo impermeabilizado, menos água tem para recarregar”, explicou.

De acordo com a prefeitura, foram realizadas 12 ações neste ano para coibir o parcelamento irregular na região de Vargem das Flores. Conforme o superintendente de controle ambiental, Eric Machado, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos fiscais é identificar os infratores, já que como se tratam de imóveis rurais, na maioria das vezes o município não possui cadastros. Além disso, a equipe de fiscais foi reduzida nos últimos anos por conta das aposentadorias, mas a prefeitura prepara um concurso público para o próximo ano.

No fim de agosto, foi iniciada a IV Conferência Municipal de Políticas Urbanas para a revisão do plano diretor. “O objetivo é discutir com à população a cidade que queremos, bem como definir as diretrizes que irão compor o Projeto de Lei que será aprovado pela Câmara Municipal e implementado nos próximos 10 anos”, informou a prefeitura. Já a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) declarou que realizou mais de 170 fiscalizações na região entre 2019 e julho de 2021.

 




Fonte: Fonte: Jornal O Tempo

Jornal O Tempo

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