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Olaf Scholz, social-democrata que lidera na Alemanha, é ‘oposição situacionista’ ou ‘situação oposicionista’? Entenda

Se há uma coisa que a maioria do eleitorado alemão dá sinais de apreciar, é a estabilidade no governo. Essa maioria é avessa a guinadas bruscas, ou mesmo a guinadas de qualquer espécie. Se comparássemos o candidato com um motorista de automóvel, o pior que ele pode propor é fazer um cavalo-de-pau. Ele deve de preferência propor, no máximo, pequenas inflexões para lá ou para cá.

Veja-se o caso da candidata pelo Partido Verde, Annalena Baerbock. Quando assumiu a liderança do partido, era a favorita para a eleição de 26 de setembro próximo. Com 40 anos, jovem para o padrão etário geriátrico da política alemã, deu mostras de alguma impulsividade, prometendo mudanças de rumo, por exemplo, com uma oposição mais rigorosa em relação à Rússia de Vladimir Putin.

O presidente russo não desfruta de simpatia entre a maior parte do eleitorado alemão. Porém, o gás russo —do qual depende a política energética do país— sim. Resultado: Annalena e os Verdes foram caindo nas pesquisas; dos quase 25% que tinham, hoje lhes restam modestos 17%.

2 de 4 Olaf Scholz em imagem de arquivo — Foto: Michael Sohn/Pool via REUTERS

Olaf Scholz em imagem de arquivo — Foto: Michael Sohn/Pool via REUTERS

A candidata ainda enfrentou acusações de plágio num livro publicado às pressas. As acusações não eram 100% convincentes, mas isto tampouco a ajudou.

Liderança efêmera do candidato conservador

Assumiu a liderança a coligação conservadora da União Democrata Cristã (CDU), da atual chanceler Angela Merkel, e sua irmã siamesa, a União Social Cristã (CSU) da Baviera. Mas, depois de 16 anos de “reinado” na Alemanha e na União Europeia, Merkel não é mais candidata. Em seu lugar concorre Armin Laschet, atual chefe de governo da província da Renânia do Norte-Vestfália. Acontece que há mais um “mas” no meio da história.

Laschet é uma incógnita. No começo da pandemia, teve uma atitude “liberal”, negando-se a impor restrições sanitárias na província. O resultado não foi bom. Depois, ao se tornar candidato, se aproximou das propostas mais rigorosas de Angela Merkel. Além disto, não tem o carisma da chanceler que agora deixa o cargo.

3 de 4 Angela Merkel e Armin Laschet durante a campanha do partido União Democrata Cristã, em Berlim, no dia 21 de agosto — Foto: Annegret Hilse/Reuters

Angela Merkel e Armin Laschet durante a campanha do partido União Democrata Cristã, em Berlim, no dia 21 de agosto — Foto: Annegret Hilse/Reuters

Resultado: Laschet caiu nas pesquisas, saindo de 23 ou 24% para os incômodos 20% de hoje.

Social-democrata favorito

Quem subiu? Olaf Scholz, o candidato do Partido Social Democrata (SPD), que, depois de dormitar durante 16 anos à sombra da chanceler como parte de seu governo, se apresenta hoje como alternativa de oposição, desfrutando de quase 25% da preferência do eleitorado. Oposição? Ora, ora… vejamos.

Como parceiro da coligação que sustenta o governo de Merkel, Scholz é o ministro das Finanças e atual vice-chanceler. Pelas curiosas alquimias de política alemã, Scholz tornou-se candidato… à continuidade das políticas da chanceler! É a perfeita oposição situacionista ou a situação oposicionista!

A própria chanceler se sentiu na obrigação de declarar que a eleição de Scholz pode significar uma brusca guinada à esquerda, porque poderia fazer uma aliança com o PV e também com a Linke, bem mais à esquerda do que o SPD. Vai surtir efeito para barrar as pretensões de Scholz? Impossível saber hoje.

Sistema eleitoral alemão

O sistema eleitoral alemão prevê que o eleitor disponha de dois votos: um no candidato do seu distrito e outro, genérico, no partido de sua preferência. Os dois votos não são vinculados, o que torna um tanto incerto o resultado final, pois uma parte dos componentes do futuro Parlamento (o Bundestag) é eleita pelo voto partidário e na lista interna que cada partido tem.

Desta vez, a resultante de tanto equilíbrio pode ser meio desequilibrada: pela primeira vez em dezenas de anos o governo alemão poderá se formar a partir de uma coligação com três partidos independentes, em vez de dois, como hoje (A CDU/CSU, que conta como um único partido, e o SPD).

A estabilidade alemã vem sendo ameaçada por desequilíbrios graves. Além do vaivém da pandemia, das inundações terríveis de julho, com quase duas centenas de mortos, milhares de desabrigados e cidades destruídas, e de uma nova leva de refugiados resultante da fracassada política no Afeganistão, a inflação anual pode superar a casa dos 3,5%. Para uma economia que se orgulhava de um índice próximo de zero, esse resultado soa como as trombetas do Apocalipse.

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4 de 4 Chanceler alemã, Angela Merkel, chega para reunião de cúpula da União Europeia em imagem de arquivo — Foto: Olivier Matthys/AP

Chanceler alemã, Angela Merkel, chega para reunião de cúpula da União Europeia em imagem de arquivo — Foto: Olivier Matthys/AP

De resto, fica também a incógnita do que o 26 de setembro vai significar para o continente, porque, sem dúvida, no “reinado” de Merkel, a Alemanha tornou-se o fiel da balança e o fio de prumo da União Europeia.

Uma vitória do SPD poderia significar de fato uma leve inflexão à esquerda, com ampliação de programas sociais, relativos ao meio ambiente e aos refugiados. Ou poderia significar a confirmação da máxima de um dos personagens de “Il Gattopardo”(“O Leopardo”), romance de Giuseppe Lampedusa e filme de Lucchino Visconti: “tudo deve mudar para que tudo fique como está”. A ver.


Fonte: G1 – Mundo

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